CFM discute uso ético da inteligência artificial na medicina e anuncia IA para fiscalizar médicos: o que muda para você
O CFM detalhou as regras da Resolução 2.454/2026 sobre IA na medicina e apresentou a IA na fiscalização. Veja o que muda para o médico e por que a decisão clínica continua sendo sua.

Na quarta-feira (30/09), em Goiânia, o Conselho Federal de Medicina (CFM) realizou mais uma edição do Divulga CFM, em parceria com o Cremego. O tema foi um dos mais quentes da nossa profissão: o uso da inteligência artificial na prática médica. A palestra foi do 3º vice-presidente do CFM, Jeancarlo Cavalcante, que coordena a Comissão de Inteligência Artificial na Medicina e foi o relator da Resolução CFM nº 2.454/2026.
Se você ainda não leu essa resolução, vale parar o que está fazendo. Ela foi publicada no Diário Oficial em fevereiro e está em vigor desde 26 de agosto. Ou seja, já vale para todos nós.
A regra de ouro: a IA apoia, o médico decide
O ponto central é simples. A inteligência artificial pode ajudar a analisar informações e apoiar decisões clínicas, mas diagnóstico, prognóstico, prescrição e tratamento continuam sendo responsabilidade do médico. Você pode aceitar a sugestão da ferramenta ou rejeitá-la, de acordo com o seu julgamento clínico.
A frase de Cavalcante resume bem: a IA amplia a capacidade médica, mas não substitui a inteligência clínica humana.
O que a resolução proíbe e exige
Há duas regras que, na minha opinião, todo médico precisa guardar:
- Não é permitido delegar à IA a comunicação de diagnósticos, prognósticos ou decisões terapêuticas. Dar uma notícia difícil ao paciente é um ato médico, e nenhum chatbot faz isso por você.
- Quando a IA for um apoio relevante no cuidado, o paciente deve ser informado de forma clara e acessível. Transparência com o paciente deixa de ser boa prática e passa a ser exigência.
A norma também trata de pesquisa, governança, auditoria, monitoramento e capacitação, com critérios proporcionais ao impacto de cada aplicação. Também foram discutidos os riscos da IA generativa, como informações incorretas e vieses algorítmicos, com referência ao AI Act europeu.
O outro lado: a IA também vai fiscalizar você
Essa parte mereceu menos atenção nas conversas de corredor, mas é muito relevante. Em junho, o CFM lançou um módulo de IA dentro da Plataforma Nacional de Fiscalização. A ferramenta cruza dados das bases do CFM e dos CRMs, históricos de vistorias, cadastros profissionais, informações públicas de estabelecimentos e também conteúdos publicados em ambientes digitais e redes sociais.
Entre as aplicações apresentadas estão a identificação de estabelecimentos sem Comissão de Ética Médica, alertas de certificados vencidos e a busca automatizada por publicidade médica em desacordo com as normas. Um exemplo dado foi o de anúncios em que o médico divulga uma especialidade sem ter o RQE. A expectativa do CFM é um aumento de cerca de 30% na produtividade da fiscalização.
O CFM garante que não haverá decisão automatizada: os alertas serão checados por médicos fiscais antes de qualquer medida.
A minha opinião
Primeiro, acho positivo que o CFM tenha feito uma norma que não demoniza a tecnologia. O texto reconhece que a IA veio para ficar e coloca o médico no centro. Também gostei de o próprio Conselho admitir que a resolução será revista sempre que necessário, porque a tecnologia muda rápido demais para uma regra engessada.
Segundo, a mensagem para quem produz conteúdo médico nas redes é direta: a fiscalização vai ficar mais inteligente. Quem divulga especialidade sem RQE, promete resultado ou foge das regras de publicidade médica deve assumir que será encontrado. Se o seu perfil está em dia com o Manual de Publicidade Médica, ótimo. Se não está, a hora de ajustar é agora, antes de receber uma notificação.
Terceiro, e para mim o mais importante: o risco real não é a IA errar, é o médico parar de pensar. Usar a ferramenta sem checar, copiar uma resposta sem avaliar criticamente ou terceirizar o raciocínio clínico é o caminho mais curto para um problema ético e, principalmente, para um problema com o paciente. A resolução é clara ao dizer que a responsabilidade continua sendo nossa.
Por isso, a melhor decisão que o médico pode tomar hoje não é fugir da IA nem usar de qualquer jeito. É estudar, entender os limites das ferramentas e incorporá-las com critério. Como disse o presidente do Cremego, Rafael Martinez, a IA já é uma realidade e o médico precisa conhecer seus limites e saber usá-la com responsabilidade.
Em resumo
- A Resolução CFM nº 2.454/2026 já está em vigor.
- A decisão clínica é sempre do médico.
- Comunicar diagnóstico e prognóstico não pode ser delegado à IA.
- O paciente deve ser informado quando a IA for apoio relevante no cuidado.
- A fiscalização agora conta com IA, inclusive nas redes sociais e na publicidade médica.
É nessa direção que estamos construindo o Greenbook.
Greenbook revela. O médico decide.
Fonte: Portal Médico do CFM (01/10/2026).


